A Idade da Velhice? [Henry Alfred Bugalho]


A Idade da Velhice?

Quando Caetano Veloso completou sessenta anos, deu uma entrevista dizendo que, aos vinte anos, ele considerava que alguém de sessenta anos era velho, mas, que agora que tinha esta idade, percebeu que ainda se considerava novo.

Um professor meu de faculdade, numa aula sobre Heráclito, levantou a seguinte questão: onde está a criança que um dia fomos? Ela deixou de existir, ou ainda continua em nós? Ou o adulto que somos já estava presente na criança?
Acredito que ele defendia as mudanças, de que algo deixa de ser o que era de maneira espontânea, que tudo estava em constante mudança, como já havia pensado o filósofo de Éfeso.
Minha esposa é, por outro lado, da opinião que nós, seres humanos, somos todos crianças. Nosso corpo cresce, envelhece, somos moldados por nossas experiências, pelas responsabilidades, mas, no fundo, somos as mesmas crianças de sempre. Recentemente, um psicólogo na TV disse algo semelhante: "a idade mental de todos os adultos é de 12 anos".

Tais exemplos me ocorreram hoje após ter recebido um e-mail de uma leitora que me chamava de "senhor". Não é a primeira vez que isto ocorre, nos últimos tempos. Tenho ouvido alguns "sirs" por aí, vindo de crianças americanas e, na última vez que entrei para jogar xadrez online, uma garota perguntou por minha idade e, ao responder, ela disse: "ah, eu ainda sou um bebê. Só tenho dezoito anos".

Isto porque nem cheguei à casa dos trinta anos, e estou bem longe de me sentir velho. Se eu parar para pensar, devo ainda ter a mentalidade de doze anos: jogo videogame, como chocolate, hambúrguer, salgadinho, pizza o tempo todo, gosto de acordar tarde e, às vezes, sinto que ainda vejo o mundo com o olhar de uma criança, deslumbrado.
No entanto, lembro-me com muita clareza de quando minha mãe, já separada de meu pai, saía nas noites de sábado para ir dançar e eu, um menino com cinco ou seis anos de idade, achava um absurdo que uma velha pudesse querer se divertir. À época, ela tinha pouco mais da minha idade hoje.
Também me recordo de como um ou dois anos faziam enorme diferença da hora de escolhermos nossos amigos, na juventude. Um rapaz de 16 anos não andava com um de 13, já possuíam interesses completamente diferentes, uns ainda brincavam enquanto os outros já estavam namorando, bebendo ou fumando. Hoje, ter um amigo cinco (ou até dez) anos mais velho não seria problema algum, os interesses não mudam muito, há uma certa homogeneização.

Então, ainda sem ter muita certeza da resposta, e com o comentário de Caetano Veloso diante de mim, indago-me: qual é a idade da velhice?
Chegará um dia no qual eu realmente poderei dizer - "estou velho" -, que ficarei confortável com o título de "senhor", que não terei mais a cabeça de um meninote de 12 anos e que não salivarei toda a vez que passar na frente de um Mc Donald's?

Algum tempo atrás, atravessando a rua para ir almoçar, vi uma senhora de andador, devia ter uns 80 anos, sendo amparada por uma enfermeira. Ela mal conseguia andar, mas havia dado uma acelerada para atravessar a rua. A enfermeira dizia à senhora: "Calma! Calma! Já vamos chegar lá".
A senhora estava indo para o mesmo lugar que eu: uma lanchonete. Ela entrou "correndo", compraram o sanduíche e a velhinha tacou ketchup na batata-frita.

Definitivamente, não envelhecemos. A nossa pele fica enrugada, ficamos mais cansados, mais desgastados, talvez até mais desiludidos, mas a criança está e estará sempre lá, esgueirando-se através das areias do tempo, rindo e pulando, pronta para alguma traquinagem.


Por Henry Alfred Bugalho

1 comentários:

Jane Eyre Uchôa disse...

Olá Henry! Gostei muito do seu texto. Gosto dessa abordagem acerca da idade cronológica, mas vou te falar de minha percepção sobre a idade. Quando eu tinha 18 anos eu era louca para ter 40, imagina só, eu, mulher, gatinha de 18 anos querendo ser uma mulher madura! mas meus gostos pessoais me levavam para isto, o velho e bom jeans da adolescencia era substituido por uma saia muito bem cortada abaixo do joelho acompanhada de uma blusa de seda muito comportada e saltos finissimos incrementados com uma maquiagem no mínimo pesada para a minha idade, eu queria envelhecer...amava conversar com mulheres mais velhas de 30,40 anos, ouvia seus conselhos, adorava seus estilos e sua postura diante os homens e percebia como os homens a admiravam, logo, queria ser uma delas. E olhando para trás hoje, eu vejo uma adolescente magra, feia, cabelo curto, sem charme, enfiada dentro de uma roupa de gente grande (que eu queria ser) não tinha a experiencia que tenho hoje(nem poderia) mas que esperava ansiosamente pelo futuro, um futuro que já chegou. Quando fiz 40 anos realizei uma festa que simbolizava toda a minha felicidade, eu estava muito feliz, em forma, com o corpo que sonhei ter aos 18, com a cabeça que pensava que teria aos 40, com a realiação que esperava alcançar quando chegasse nesta idade. A vela do meu bolo era enorme, para nao deixar dúvidas da minha felicidade com aquelas quatro décadas, foi uma festa em grande estilo com o tema Cinema anos 50 onde eu era a Marylin Monroe, a Betty Boop e uma Pin up, todas as fantasias da minha adolescencia, eram mulheres fortes e sensuais, sempre a frente do seu tempo. Não sei se Jorge Amado tem um dedinho nesta história rs, por que eu li a obra dele com 10 anos de idade, amava aquela mulherada forte, sensual e batalhadora que ele descrevia. Enfim, concluo te dizendo o que eu escrevi em um texto meu que se chama ''A velhice começa hoje"" todos nós quando nascemos começamos o processo de envelhecer, logo eu sou mais velha que você, você é mais velho que seu filho, seu filho é mais velho que o irmão mais novo e por aí vai. A cada dia envelhecemos, o tempo não volta, as lembranças ficam por que somos o resultado da infancia, juventude, vida adulta e agora a tão sonhada melhor idade. Porém o mais importante disso tudo é envelhecer com qualidade de vida, saúde acima de tudo pois com ela você desfruta de seu passado usando o presente e pensando no futuro, e o futuro já começou. Ótimo texto!!! ganhastes uma fã. abçs